Na caminhada para se tornar a quinta potência do mundo, o
Brasil enfrenta um obstáculo ainda perverso, e de difícil solução: após 10 anos
de avanços econômicos, que fortaleceram a moeda e estimularam o consumo,
preocupa os especialistas o baixo nível educacional da população. Estimativas
indicam que cada ano a mais na formação de trabalhadores tende a elevar o
crescimento da economia em até 7%. "A revolução do ensino precisa começar
já, ou nunca seremos referência em um tema que tem nos custado tão caro",
afirma Mozart Neves Ramos, conselheiro da ONG Todos pela Educação. As mudanças
nesse cenário, felizmente, começam a aparecer: o aumento da renda permite, para
muitas famílias, o acesso à universidade.
O aumento da escolaridade é a maior arma de que o país
pode dispor para se livrar do atraso que dificulta a caminhada rumo ao
desenvolvimento. Cada ano a mais de ensino na formação de trabalhadores tende a
elevar o crescimento econômico em até 7% - Notícia Gráfico
A transformação social do Brasil nos últimos 10 anos,
fruto da consolidação da estabilidade econômica, resultou na ascensão de mais
de 40 milhões pessoas à classe média e em um mercado consumidor invejável.
Depois de mais de duas décadas de estagnação, hiperinflação
e desemprego recorde, esse contingente de brasileiros pôde ir às compras,
reformar a casa, botar o primeiro carro na garagem. Enfim, satisfazer
necessidades relegadas por tanto tempo. Mas quando descontados todos os
avanços, nada salta mais aos olhos do que o baixo nível educacional da nação
que caminha, a passos largos, para se tornar a quinta potência do mundo até
2015.
"Se o Brasil quiser completar os 200 anos de
independência, em 2022, livre das amarras do atraso, a única opção que lhe resta
é fazer a revolução da educação. E ela precisa começar já, ou jamais seremos
referência nesse tema que tem nos custado tão caro", diz Mozart Neves
Ramos, conselheiro da ONG Todos pela Educação. Felizmente, ainda que o ritmo
não seja o desejado, as mudanças estão se impondo no horizonte. Em muitas
famílias, pela primeira vez, um de seus integrantes está tendo acesso à
universidade, seja pelo aumento da renda, seja por meio de uma bolsa de estudo
ou de um financiamento bancário.
Com mais anos de estudo no currículo, os brasileiros
estão deixando para trás um destino que, para muitos, parecia traçado:
conseguir, no máximo, um subemprego e viver açoitado pela pobreza e pela falta
de perspectivas. Não à toa, tornaram-se exemplos para os mais próximos. Atualmente, o Brasil oferece
29,5 mil cursos em instituições públicas e privadas de nível superior, três
vezes o número existente em em 2000. Naquele ano, cerca de 300 mil
estudantes concluíam, anualmente, a graduação. Pelas contas do Instituto
Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), pelo menos 1 milhão de profissionais foram
formados em 2011.
Potencial
Em algumas regiões, como o Nordeste, o ingresso de
estudantes em curso superior cresce vertiginosamente: as matrículas passam de 1
milhão por ano, atrás apenas do verificado no Sudeste, onde estão os estados
mais ricos do país. Nos cálculos do pesquisador Marcelo Neri, do Centro de
Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas, o incremento educacional no
Nordeste tem impulsionado mais a economia do que os programas de transferência
de renda do governo. Entre
2001 e 2009, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita nordestino avançou 41,8%,
dos quais 31,8 pontos percentuais decorreram do aumento da escolaridade e 5,4
pontos, dos repasses governamentais. (Realmente esse fato procede, pois tenho feito várias
viagens pelo Nordeste e observo que o sistema educacional nordestino está evoluindo a
passos largos. Ex: 33% dos melhores cursos de direito no Brasil estão no
Nordeste. Comentário Ciro Rod)
No conjunto da economia, o impacto da educação tem
potencial ainda mais expressivo. O acréscimo de um ano na média de escolaridade
dos brasileiros, que, atualmente, é de apenas 7,2 anos, é capaz de ampliar em
até 7% o PIB, a soma de todas as riquezas produzidas em um ano, diz o
economista Samuel Pessôa, sócio da Consultoria Tendências. Ele explica que tal
crescimento resultaria da combinação do avanço no salário médio dos
trabalhadores com a criação de condições mais favoráveis para o investimento e
o desenvolvimento de novas tecnologias. "O aumento da escolaridade tem,
inegavelmente, impactos diretos e indiretos sobre o PIB a longo prazo",
ressalta.
Na avaliação de Pessôa, longe de ser apenas uma benesse
oferecida à população, o estímulo à educação é uma estratégia adotada
tardiamente pelos governos no Brasil. Os primeiros esforços para fazer do
ensino uma ferramenta para o crescimento econômico surgiram há menos de 20
anos. Apesar de o país ter, atualmente, 6,4 milhões de alunos matriculados em
cursos superiores, mais do que o dobro de uma década atrás, o contingente
representa apenas 15% da população com idade entre 18 e 24 anos.
O secretário de Ensino Superior do Ministério da
Educação, Luiz Cláudio Costa, reconhece que o número é pequeno, mas afirma que
o trabalho feito nos últimos 10 anos não pode ser desprezado. "Nós
estávamos com um percentual de jovens e de adultos lamentavelmente muito baixo
nas universidades. Mas, por mais que tenhamos feito, ainda estamos muito além
do ideal", admite.
A vitória individual dos brasileiros que aproveitaram as
poucas oportunidades de que dispunham e o caminho de espinhos a ser percorrido
por aqueles que veem na educação de qualidade a porta da libertação do atraso
serão temas de uma série de reportagens publicadas pelo Correio Braziliense a
partir de hoje.
Valorização do professor
Mozart Neves Ramos, conselheiro da ONG Todos pela
Educação, assegura que, sem uma estratégia consistente do governo para melhorar
a qualidade do ensino no país, dificilmente haverá motivos para comemoração
mais à frente. "Não podemos perder o bonde da história. É preciso
aproveitar o bom momento da economia do país e melhorar a qualidade do
aprendizado. E o passo mais importante é valorizar o professor", diz. Ele
ressalta que nenhuma grande economia do mundo atingiu padrões de vida
civilizados sem um comprometimento real com a educação.
União de forças
Jorge Werthein, especialista em educação e ex-diretor da
Unesco, admite que é desanimador comparar os índices da educação no Brasil, a
sexta maior economia do mundo, com os níveis de formação profissional das
nações desenvolvidas. "A distância do Brasil ainda é muito grande. Apesar
da melhoria dos indicadores educacionais nos últimos anos, o país está longe de
recuperar as décadas de atrasos e de superar o descaso com o sistema de
aprendizado", afirma. A seu ver, não adianta apenas o governo federal fazer a parte
dele. É preciso que estados e municípios se somem aos esforços.
Fonte: Gabriel Caprioli - Correio Braziliense
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